A lombalgia, conhecida popularmente como
dor nas costas, é uma das grandes causas de morbidade e
de incapacidade funcional, tendo uma incidência apenas menor
que a cefaléia entre os distúrbios dolorosos que
acometem o homem. Cerca de 80% das pessoas têm algum tipo
de dor lombar em alguma fase da vida, e os gastos anuais decorrentes
desse problema são astronômicos e crescem a cada
ano. Como veremos a seguir, a atividade física contribui
imensamente no tratamento e na prevenção da lombalgia,
mas os atletas e praticantes de corridas de longa distância
não estão imunes a ela.
A lombalgia é um sintoma que pode estar relacionado a certas
doenças, e são poucos os pacientes que têm
um diagnóstico definido durante a avaliação
inicial. Alguns autores estudaram a influência da dor sobre
o sistema nervoso central, observando que ao redor de 40% dos
portadores de lombalgia pensam estar com alguma doença
séria. Portanto, o esclarecimento adequado ao paciente
pode auxiliar no tratamento.
O tipo mais comum de lombalgia que acomete os praticantes de atividade
física é a de origem mecânico-degenerativa,
doença com múltiplas causas caracterizada por uma
alteração funcional e não estrutural das
partes envolvidas, na qual o excesso de peso, sobretudo da região
abdominal, e o encurtamento da cadeia muscular posterior, incluindo
os músculos da região lombar, músculos da
parte posterior da coxa (ísquio-tibiais), músculos
da panturrilha (tríceps sural) e músculos da planta
do pé (fáscia plantar), contribuem de forma importante
para a origem do problema. A dor ocorre por um problema mecânico,
ou seja, os músculos não estão suficientemente
alongados para permitir uma amplitude total de movimentos do tronco
e quadril, e dessa forma sofrem mínimas lesões por
estiramento durante posturas inadequadas ou movimentos bruscos,
resultando em uma resposta de espasmo muscular e provocando a
sensação de “travamento nas costas”
relatada pelos pacientes. A degeneração de estruturas
ósseas e não ósseas (tendões e ligamentos)
ocorre não só em função da idade mas
sobretudo pelo sedentarismo, acarretando atrofia muscular por
desuso, diminuição da flexibilidade da coluna dorso-lombar
e comprometimento da capacidade de alongamento das cadeias musculares
ao lado da coluna vertebral (cadeias paravertebrais). O excesso
de peso na região abdominal, outro fator importante para
a ocorrência das lombalgias, causa uma anteriorização
do centro de gravidade do paciente, exercendo uma sobrecarga constante
sobre a musculatura lombar e facilitando o surgimento de lesões.
O exame clínico apresenta dor à palpação
e à movimentação das cadeias musculares paravertebrais,
dificuldade à flexo-extensão do tronco (movimento
de dobrar e esticar o tronco com os joelhos estendidos), posição
antálgica (menos desconfortável ao paciente) e ausência
de alterações neurológicas (como sensação
de dormência em membros inferiores e reflexos abolidos ou
exacerbados). A dor piora no final da tarde, geralmente após
o trabalho, e pode se agravar com a movimentação
excessiva ou o stress emocional. As radiografias simples (exames
de raio X) não estão indicadas nos casos de lombalgias
mecânicas agudas, exceto nas situações em
que haja algum “sinal de alerta” (dor presente em
adultos maiores de 55 anos de idade, trauma violento, história
prévia de câncer, perda de peso acentuada, dificuldade
para urinar, diminuição de força motora)
ou persistência do quadro clínico além da
quarta semana do início dos sintomas. Durante a crise,
o tratamento deve incluir repouso relativo (atividades de vida
diária e exercícios leves), diversas medidas fisioterápicas
para analgesia (retirada da dor), exercícios de alongamento
quando possível, medicação analgésica
e antiinflamatória, e suporte psicológico quando
necessário. Após a crise, começa a parte
mais importante do tratamento: orientação ao atleta
sobre o problema enfrentado e sobre as medidas necessárias
para evitar recidivas.
Os corredores de longa distância, atletas ou apenas praticantes
de atividade física de forma geral, precisam se conscientizar
da importância dos exercícios específicos
de alongamento e fortalecimento da musculatura lombar para a prevenção
de dores nas costas, pois estão predispostos a desenvolver
estas lesões já que praticam um tipo de atividade
que não trabalha especificamente grupos muscularas lombares.
Exercícios de alongamento devem ser realizados de forma
contínua e progressiva, sem sobressaltos, até o
limite da dor, quando o atleta deve permanecer na posição
durante 30 a 40 segundos, preferencialmente na posição
sentada e trabalhando tanto os músculos dos membros superiores
quanto dos membros inferiores. Já os exercícios
de fortalecimento devem envolver a musculatura das colunas musculares
paravertebrais e a musculatura abdominal, pois esta exerce função
importante no suporte para as costas. Os exercícios abdominais
devem ser feitos com os joelhos fletidos e os cotovelos flexionados
com as mãos tocando ligeiramente a nuca, enquanto que os
exercícios para a região lombar devem incluir todo
o arco de movimento. Estes exercícios estão indicados
para o desenvolvimento do trofismo muscular, ou seja, para a melhora
da força desta musculatura e não para a perda de
tecido adiposo (gordura), como estamos acostumados a ouvir no
mundo da atividade física.
Dr. Marques Neto: Médico
formado pela Faculdade de Medicina da USP - Pinheiros. Especialista
em Ortopedia e Medicina Esportiva pelo Hospital das Clínicas
- FMUSP. Pós-graduado em Fisiologia do Exercício pelo
ICB - USP. Ortopedista da Clínica Paulista de Esportes (tel.:
5549-8881). Maratonista do Esporte Clube Pinheiros. E-mail: jmarquesneto@hotmail.com